quinta-feira, 24 de maio de 2012

O que se fala quando se cala? Por uma sociedade inclusiva


Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação (PPGE/UFES)

Na semana passada acompanhamos a luta da companheira Lucia Mara Martins para conseguir junto à Farmácia Cidadã do município de Serra/ES a medicação para seu filho com deficiência, Samuel, de apenas 16 anos. O adolescente ficou sem a medicação por um mês e teve que contar com o apoio de amigos na doação de uma caixa do remédio que custa em torno de R$ 300,00, já que estava há muitos dias sem dormir, comprometendo sua vida diária e a de toda família. O caso de Samuel não é o único apesar do que é preconizado no artigo 4º, da Lei 8069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente):


Artigo 4º - É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

A diferença é que a sua mãe tem conhecimento dos seus direitos e foi em busca deles. 

Semanas antes desse problema com a medicação, Lúcia já vinha denunciando as péssimas condições (físicas e pedagógicas) que as escolas estaduais dispõem para receber estudantes com deficiência. Apesar da Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo (SEDU) afirmar que não há problemas, sabemos que não é bem assim. Escolas sem rampa ou elevador, sem banheiros adaptados, sem materiais pedagógicos e espaços físicos adequados, ausência de profissionais qualificados para o atendimento especializado, profissionais (professores, pedagogos, coordenadores) que não dispõem de formação para melhor atender os alunos com deficiência que passam a ser responsabilidade exclusiva dos professores especializados, dentre outros problemas como atendimento adequado às famílias de estudantes com deficiência e a própria exclusão que essas crianças sofrem, já que não há na maioria das escolas a discussão em torno da inclusão que vai além do acesso à escola ou a uma sala de aula regular. O estudante com deficiência precisa ganhar visibilidade na escola não pela mudança na rotina que provoca a sua presença (e quer as escolas ter suas rotinas engessadas alteradas?), mas por ser um sujeito com os mesmos direitos que os demais. E ser respeitado por isso.

O que mais choca, em ambas as situações (saúde e educação) é que houve um silenciamento por parte da mídia e dos políticos em torno do assunto, apesar de termos nos mobilizado (os amigos de Lúcia), a fim de denunciar, quer nas redes sociais, quer nos canais de comunicação sobre a negativa da Farmácia Cidadã de Serra/ES em conceder a medicação ao adolescente. Mais uma vez naturalizou-se uma situação de exclusão.

Diante do exposto fica a questão: ao serviço de quem estão os meios de comunicação e os políticos do nosso Estado? Qual a nossa responsabilidade enquanto cidadãos diante de casos como o de Samuel? Por que nos calamos? Por que não nos posicionamos enquanto servidores da saúde ou da educação diante desses casos? Por que compramos a ideia de que não conseguiremos modificar a realidade social deste país, quando na verdade, a única chance de mudança está na força do coletivo?

O que acha leitor, de dialogarmos sobre estas questões? 

Está aberto então o diálogo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O fenômeno bullying nas escolas


Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação

O início deste ano letivo foi marcado pela tragédia envolvendo o adolescente Roliver que suicidou-se, a princípio, por não conseguir lidar com as constantes humilhações porque passava no ambiente escolar. Este fato traz à tona a discussão sobre o bullying e sobre a forma como a escola e seus profissionais trabalham, pedagogicamente, para prevenir esse tipo de violência, presente em todas as escolas.

O bullying tem em suas bases o preconceito: estético, religioso, homofóbico, racial, social, dentre outros. E é isso que precisamos combater: o preconceito. No jornal A Tribuna do dia 11 de março de 2012, o filósofo Mario Sérgio Cortella, afirmou, em entrevista, que os pais são os responsáveis por esse tipo de comportamento preconceituoso nas crianças. Isso é verdade, pois o preconceito é socialmente aprendido. Daí que o tratamento pedagógico da questão deva envolver as crianças, os professores e também as famílias.

A sociedade brasileira é estruturalmente violenta, embora isso seja negado e camuflado na ideia da passividade e da cordialidade do brasileiro, conforme aponta a filósofa Marilena Chauí. Romper com esta estrutura significa reconhecer a existência do mito da não-violência brasileira e encarar esse fenômeno social de frente. Significa partir do princípio de que somos, todos, preconceituosos, em alguma medida. Significa estar atentos às piadas preconceituosas e às brincadeiras que humilham. Significa pensar que para ser considerada brincadeira a ação precisa ser divertida para todos os envolvidos, senão ganha outra conotação.

E porque isto está tão latente nas escolas? Justamente porque são nas escolas que os diferentes precisam conviver. E essa convivência é conflituosa quando as diferenças não são respeitadas. E o conflito pode se resolver por meio do diálogo ou do confronto. Quando é resolvido por meio do diálogo há possibilidade  de desconstrução do preconceito. Quando se dá por meio do confronto, as violências estão presentes e aí é necessário estar atento (família e escola) e agir. Agir significa encarar a situação, envolvendo a vítima, o agressor, a plateia e suas famílias. Significa fazer compreender o direito do outro a ser respeitado na sua diferença.

Infelizmente identificar a situação de bullying nem sempre é fácil, pois é necessário um olhar atento ao outro e ao seu sofrimento. É necessário uma escuta qualificada e uma disposição em não banalizar e/ou negligenciar nenhum tipo de violência. Para isso, o educador precisa de formação e orientação, além de sensibilidade em relação ao outro. As famílias também precisam estar atentas e devem ser parceiras da escola, devem buscar seus profissionais sempre que perceberem mudanças de atitudes em seus filhos. Essas duas instituições devem caminhar juntas e se reconhecer como parceiras e não como adversárias. Devem enfrentar juntas esse grave problema.

Quando isso ocorrer deixaremos de ver tragédias como a que envolveu o Roliver estampadas nos jornais. Deixaremos de ver crianças, adolescentes e jovens sofrer por terem suas diferenças vistas e apontadas como defeitos. Desconstruiremos socialmente o preconceito e construiremos uma sociedade mais justa e igualitária que reconheça e valorize as diferenças.

Texto publicado no Jornal A Tribuna, em 11 de junho de 2012, na coluna Tribuna Livre.