Espaço para diálogo sobre assuntos referentes à educação e sociologia...
domingo, 25 de janeiro de 2015
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
A FORMAÇÃO DOCENTE E A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO
Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação
De acordo com
levantamento do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais),
com base no Censo Escolar de 2012, 55% dos docentes da rede pública de ensino
do país lecionam sem ter formação específica na área de atuação. Estes dados
ferem a legislação (LDB 9394/96), a qual prevê que os docentes que lecionam a
partir do 6º ano do Ensino Fundamental devem ter licenciatura específica na área
de atuação. De acordo com o Secretário de Educação Básica do Ministério da
Educação (MEC), Romeu Caputo, conforme publicado no Jornal Folha online, em 26 de
dezembro de 2013, parte do déficit é proveniente de disciplinas recentemente
incorporadas ao currículo, como Sociologia e Filosofia. Por que faltam
profissionais licenciados nestas disciplinas, já que a obrigatoriedade das
mesmas no currículo escolar existe desde 2008? Qual estímulo foi dado para que
ampliassem as vagas nos cursos de licenciatura em Sociologia e/ou Filosofia?
Como professora de
Sociologia no Ensino Médio na rede pública estadual, afirmo que as condições de
oferta dessas disciplinas promovem um desestímulo no profissional, uma vez que
a carga horária semanal é de uma aula, o que pressupõe um número elevado de
turmas, isso sem contar que a carga horária é insuficiente para o
desenvolvimento qualitativo do trabalho pedagógico com vistas à emancipação do
sujeito.
Como incentivar
jovens a cursarem licenciaturas sem que haja mudanças significativas na carreira
docente, sobretudo, nas disciplinas com maior déficit? É preciso que haja
valorização profissional com melhores salários, mas também desconstrução da
hierarquização do conhecimento, compartimentado em disciplinas, assim como
qualificar a formação inicial e estimular a formação continuada.
Outro
questionamento que penso ser conveniente é se esses dados justificam o descaso
do MEC em relação às complementações pedagógicas, que têm lançado ao mercado,
profissionais despreparados, com má formação, mas legalmente capazes de assumir
postos de trabalho, sobretudo, nas áreas de Sociologia e Filosofia.
Para ser docente
não basta ter acúmulo dos conhecimentos historicamente acumulados, daí a
importância da formação pedagógica, o que, em tese, contribuiria para um melhor
conhecimento a respeito da escola e dos sujeitos com os quais ela trabalha.
Acredito que o educador precisa gostar e apostar em gente. Precisa ser agente
de transformação social.
O educador,
sobretudo, na atualidade, deve ser mediador do conhecimento. Deve estimular os
estudantes a fazerem as perguntas ao invés de dar as respostas. Por que existe
desigualdade social? Essa é a questão e não a “oferta de bolsa família” para as
famílias carentes. Por que adolescentes cometem atos infracionais? E não
somente discutir a redução da maioridade penal.
Para que isso
ocorra há que se ter responsabilidade na gestão educacional,
valorizando/incentivando a formação de novos profissionais do magistério,
investindo na formação continuada (como já foi apontado pelo MEC, através do
Pacto Nacional para o Fortalecimento do Ensino Médio), repensando o currículo
escolar (sem hierarquização do conhecimento) e, sobretudo, avaliando a
qualidade dos cursos de complementação pedagógica, oferecidos “aos quatro
cantos do mundo”, sem o menor controle e rigor, com a desculpa de que há
necessidade de suprir a demanda de profissionais. A demanda existe, mas não
pode ser justificativa para o sucateamento da escola pública.
Texto no publicado na coluna Tribuna Livre, do Jornal A Tribuna (Vitória/ES), de 07 de janeiro de 2014.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
SALA DE AULA: ESPAÇO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
Fabíola dos Santos Cerqueira
A
sala de aula é um espaço pesquisado e analisado por muitos especialistas
da área educacional, no entanto, constitui-se como um local exclusivo de
professores e estudantes. Os conflitos, os encontros e desencontros que
ali ocorrem são momentos que marcam as vidas desses sujeitos de forma
singular, tanto positiva como negativamente. Proponho-me a falar das
marcas positivas que a sala de aula me proporciona. Espaço de construção
de conhecimento, de emoção, de partilha, de doação e de amizade.
Há os
que certamente me julgarão, pois não conseguem ver a “belezura” da sala
de aula. Não conseguem enxergar o brilho no olhar do educando diante de
uma nova experiência. Até porque muitos de nós, professores, endurecidos
pelas marcas do descaso do governo e da sociedade e pelo desrespeito de
alunos e seus familiares, sofremos com a síndrome de burnout, a qual
manifesta-se pelo esgotamento físico e emocional, levando muitos
profissionais a abandonar a carreira ou mesmo provocando depressão e,
consequentemente, afastamento do trabalho. Mesmo que simbolicamente,
muitos de nós têm desistido, daí a justificativa do número elevado de
licenças médicas e a não intervenção diante desse quadro, com atenção à
saúde do trabalhador em educação.
Mas
voltando às “belezuras” da sala de aula, gostaria de registrar que ser
professora, na minha perspectiva, significa, em última instância, uma
aposta no outro. Significa gostar de gente, conhecer a categoria
geracional com a qual trabalha, oportunizar ao educando o conhecimento
historicamente acumulado e respeitar a sua realidade sociocultural.
Lecionando
Sociologia no Ensino Médio, com apenas uma aula por semana, enfrentando
os desafios da dinâmica acelerada da escola, a agitação dos jovens e um
desejo enorme de “afundá-los” nos tais conhecimentos historicamente
acumulados, percebo que a resposta para uma aula melhor tem sido dada
por eles, na medida em que, sem que me dê conta, mudam o “rumo da prosa”
e trazem a reflexão sociológica para a realidade social a qual estão
vinculados. Fazem os links com as disciplinas das diferentes áreas e me
ensinam que a escuta qualificada é a melhor forma de construir um
planejamento que os atenda.
Diante
desse desafio tenho vivenciado experiências fantásticas, vendo jovens
desconstruindo preconceitos e se dispondo a enxergar o mundo a partir de
outro viés. Tenho presenciado jovens falando sobre política (apesar do
discurso insistente de que eles não gostam de política), falando sobre o
cotidiano e apontando, de forma enfática, quais são as suas
necessidades. Vejo jovens que não se negam a cumprir as regras (com as
devidas exceções), mas que as desejam justas. Vejo jovens com projetos
de futuro, com sonhos, mas que enfrentam um presente de negação,
sobretudo por parte da ausência de políticas públicas que promovam a
inclusão social.
Encontro
no exercício diário de minha profissão, a oportunidade de cumprir a
função social de educadora, participando do processo formativo de
cidadãos plenos, os quais refletem sobre a realidade a qual fazem parte e
tentam, a seu modo, resistir às estruturas arcaicas, sejam da escola,
sejam da sociedade. E é nesse movimento de resistência que se encontra a
maior de todas as belezas: a capacidade de reagir diante da opressão.
Enfim,
como dizia Paulo Freire, a escola é sim lugar para ser feliz. E ser
feliz, para mim, é perceber que os jovens, ao contrário dos discursos
pessimistas, vislumbram um futuro de mudança, mas exigem um presente com
respeito e dignidade. Por isso tudo é que afirmo que a sala de aula é o
espaço onde os conhecimentos são construídos e não repassados.
Novamente citando Freire, afirmo que no meu inacabamento, numa relação
dialógica com os estudantes, (re)construo-me a cada instante.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
segunda-feira, 15 de julho de 2013
2013: O ano em que os que dormiam, se juntaram aos que estavam acordados e deram início à revolução de ideias.
Consegui
chegar em casa agora depois de ter passado horas de horror em frente a
ALES. Pensei que estava em meio a uma guerra. Tanto ódio, tanta
violência vinda de quem teria por obrigação nos defender. E os policiais
diziam que estavam cumprindo ordens. De quem? Do Imperador? Não pude
entrar na "Casa do Povo" e de troco levei muito gás de pimenta (meus
olhos e narinas ardem até agora). Me livrei das balas de borracha, mas
os estragos das bombas de "efeito moral" não saem da minha mente
(violência psicológica). Vi colegas professores, pais e mães de família,
jovens, idosos, pessoas de diferentes origens correrem da polícia como
se fossem bandidos. Pela primeira vez em minha vida corri da polícia.
Pela primeira vez em minha vida tive medo da polícia. Pois a ordem era
para que "limpassem" a "Casa do Povo".
Vi jovens machucadas, vi pessoas sendo detidas simplesmente por estarem na rua exigindo o DIREITO de entrar num ESPAÇO PÚBLICO.
Vi também policiais sem a identificação na farda. Ah, um coronel a qual pedimos a sua identificação disse que era "ninguém". Interessante, não?
Vi, eu vi que TODA A CONFUSÃO COMEÇOU COM A AÇÃO POLICIAL DE DISPERSAR
OS MANIFESTANTES QUE APENAS QUERIAM AUTORIZAÇÃO PARA ENTRAR NA ALES.
NÃO HOUVE QUEM JUSTIFICASSE A RAZÃO DE NÃO PODERMOS ENTRAR. A RESPOSTA
VEIO COM O SPRAY DE PIMENTA, COM AS BALAS DE BORRACHA E COM AS BOMBAS DE
EFEITO MORAL (QUE IMORALIDADE!!!!).
Espero que os jornalistas
que lá estavam de diferentes emissoras de TV e rádio (que sofreram
também as mesmas pressões que os manifestantes), sejam justos e noticiem
os fatos como os mesmos ocorreram. Senão entrarão para a lista de
vergonha da sociedade (se é que já não estão).
Hoje meu sentimento é de VERGONHA!
VERGONHA DA ALES! VERGONHA DOS PILANTRAS QUE NÃO ME REPRESENTAM.
VERGONHA DA PM. VERGONHA DESSA DEMOCRACIA FAJUTA, ONDE POVO NA RUA É
QUESTÃO DE POLÍCIA.
MAS SAÍ DESSA EXPERIÊNCIA COM UMA LIÇÃO: SÓ USA A FORÇA QUEM NÃO TEM ARGUMENTOS.
Como educadora quero registrar que minha memória é boa e que em 2014
não esquecerei de vocês, traidores do povo. Enquanto formadora de
opinião, como escritora e professora, não deixarei que ninguém esqueça
2013. O ano em que os que dormiam, se juntaram aos que estavam acordados
e deram início à revolução de ideias.
Fabíola Cerqueira, Professora de Sociologia, Mestre em Educação, em 15 de julho de 2013.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Residência pedagógica
Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação
E-mail: cso.especialista@yahoo.com.br
Este artigo objetiva problematizar a situação do estagiário nas escolas públicas da Grande Vitória. Problematizar o entendimento dos gestores públicos em relação ao estágio e os prejuízos que esse entendimento equivocado tem trazido à formação dos próprios estagiários e dos demais alunos com os quais os mesmos trabalham.
É prática nas diferentes redes municipais da Grande Vitória a contratação de estagiários, sobretudo, para atendimento à educação especial. O estágio é, em tese, uma condição de aprendizado, no entanto, tem se manifestado como meio para garantir atendimento nas escolas regulares às crianças e adolescentes com deficiência.
Em tese, o estagiário deveria ser colocado para atuar com o melhor profissional da escola, nas mais diversas áreas (alfabetização, educação especial, educação infantil, dentre outras) para com ele aprender, na prática, os processos de ensino e aprendizagem. Porém, a realidade tem sido outra. Estagiários são contratados para “cuidar” dos alunos com deficiência e, em alguns casos, a falta do estagiário significa a não possibilidade do aluno estar na escola. Há situações mais agravantes em que os estagiários assumem a sala de aula, devido às faltas constantes de professores, que a cada dia adoecem mais, tendo em vista as condições precárias de trabalho.
Um estudante de medicina, no terceiro período da faculdade não pode prescrever medicamentos ou fazer cirurgias, no entanto, a política educacional permite que estudantes a partir do terceiro período de Pedagogia e quarto de outras licenciaturas estejam presentes nas escolas, assumindo, em algumas situações, como já relatado, a própria sala de aula ou se exige dele conhecimentos e habilidades que os profissionais formados não têm em relação à Educação Especial. O que vemos é que em nome da inclusão de alunos com deficiência nas escolas regulares, muitos processos de exclusão tem se dado cotidianamente, seja no direito da criança e do adolescente a uma educação de qualidade, seja na função social da escola de contribuir com a formação inicial do futuro profissional da educação.
Política pública de educação de qualidade tão proclamada pelas redes municipais de educação será efetivada apenas quando o estagiário deixar de se constituir como mão de obra barata e passar a ser visto como o que é: sujeito em processo de formação que necessita do contato com a prática escolar para sua qualificação profissional. E para que isso ocorra, precisam estar vinculados aos melhores profissionais da educação, precisam ser motivados a superar obstáculos e a enxergar a educação como profissão, que exige planejamento, estudo e dedicação. Não podem acreditar que “qualquer um” pode “dar aula”.
A área médica exige que o sujeito faça residência para ter o direito de atuar profissionalmente, a fim de qualificar o processo de formação. Sonho com o dia em que essa exigência será cobrada também para profissionais da área educacional. Neste dia, teremos estudantes acompanhados dos melhores professores, imbuídos do desafio de ensinar, pelo exemplo de suas ações, a arte de ensinar. E assim os profissionais chegarão à escola real, tendo passado pela experiência de aprendizagem com base no empírico e não na teoria. Se isto é uma utopia me permito alimentar-me dela para continuar acreditando que um novo mundo é possível e que educação de qualidade é meta a alcançar.
Texto publicado no Jornal A Tribuna, na coluna Tribuna Livre, do dia 16 de maio de 2013, página 27.
Assinar:
Postagens (Atom)

