terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A FORMAÇÃO DOCENTE E A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO



Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação
De acordo com levantamento do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), com base no Censo Escolar de 2012, 55% dos docentes da rede pública de ensino do país lecionam sem ter formação específica na área de atuação. Estes dados ferem a legislação (LDB 9394/96), a qual prevê que os docentes que lecionam a partir do 6º ano do Ensino Fundamental devem ter licenciatura específica na área de atuação. De acordo com o Secretário de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Romeu Caputo, conforme publicado no Jornal Folha online, em 26 de dezembro de 2013, parte do déficit é proveniente de disciplinas recentemente incorporadas ao currículo, como Sociologia e Filosofia. Por que faltam profissionais licenciados nestas disciplinas, já que a obrigatoriedade das mesmas no currículo escolar existe desde 2008? Qual estímulo foi dado para que ampliassem as vagas nos cursos de licenciatura em Sociologia e/ou Filosofia?
Como professora de Sociologia no Ensino Médio na rede pública estadual, afirmo que as condições de oferta dessas disciplinas promovem um desestímulo no profissional, uma vez que a carga horária semanal é de uma aula, o que pressupõe um número elevado de turmas, isso sem contar que a carga horária é insuficiente para o desenvolvimento qualitativo do trabalho pedagógico com vistas à emancipação do sujeito.
Como incentivar jovens a cursarem licenciaturas sem que haja mudanças significativas na carreira docente, sobretudo, nas disciplinas com maior déficit? É preciso que haja valorização profissional com melhores salários, mas também desconstrução da hierarquização do conhecimento, compartimentado em disciplinas, assim como qualificar a formação inicial e estimular a formação continuada.
Outro questionamento que penso ser conveniente é se esses dados justificam o descaso do MEC em relação às complementações pedagógicas, que têm lançado ao mercado, profissionais despreparados, com má formação, mas legalmente capazes de assumir postos de trabalho, sobretudo, nas áreas de Sociologia e Filosofia.
Para ser docente não basta ter acúmulo dos conhecimentos historicamente acumulados, daí a importância da formação pedagógica, o que, em tese, contribuiria para um melhor conhecimento a respeito da escola e dos sujeitos com os quais ela trabalha. Acredito que o educador precisa gostar e apostar em gente. Precisa ser agente de transformação social.
O educador, sobretudo, na atualidade, deve ser mediador do conhecimento. Deve estimular os estudantes a fazerem as perguntas ao invés de dar as respostas. Por que existe desigualdade social? Essa é a questão e não a “oferta de bolsa família” para as famílias carentes. Por que adolescentes cometem atos infracionais? E não somente discutir a redução da maioridade penal.
Para que isso ocorra há que se ter responsabilidade na gestão educacional, valorizando/incentivando a formação de novos profissionais do magistério, investindo na formação continuada (como já foi apontado pelo MEC, através do Pacto Nacional para o Fortalecimento do Ensino Médio), repensando o currículo escolar (sem hierarquização do conhecimento) e, sobretudo, avaliando a qualidade dos cursos de complementação pedagógica, oferecidos “aos quatro cantos do mundo”, sem o menor controle e rigor, com a desculpa de que há necessidade de suprir a demanda de profissionais. A demanda existe, mas não pode ser justificativa para o sucateamento da escola pública.
Texto no publicado na coluna Tribuna Livre, do Jornal A Tribuna (Vitória/ES), de 07 de janeiro de 2014.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

SALA DE AULA: ESPAÇO DE CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO

Fabíola dos Santos Cerqueira
A sala de aula é um espaço pesquisado e analisado por muitos especialistas da área educacional, no entanto, constitui-se como um local exclusivo de professores e estudantes. Os conflitos, os encontros e desencontros que ali ocorrem são momentos que marcam as vidas desses sujeitos de forma singular, tanto positiva como negativamente. Proponho-me a falar das marcas positivas que a sala de aula me proporciona. Espaço de construção de conhecimento, de emoção, de partilha, de doação e de amizade.
Há os que certamente me julgarão, pois não conseguem ver a “belezura” da sala de aula. Não conseguem enxergar o brilho no olhar do educando diante de uma nova experiência. Até porque muitos de nós, professores, endurecidos pelas marcas do descaso do governo e da sociedade e pelo desrespeito de alunos e seus familiares, sofremos com a síndrome de burnout, a qual manifesta-se pelo esgotamento físico e emocional, levando muitos profissionais a abandonar a carreira ou mesmo provocando depressão e, consequentemente, afastamento do trabalho. Mesmo que simbolicamente, muitos de nós têm desistido, daí a justificativa do número elevado de licenças médicas e a não intervenção diante desse quadro, com atenção à saúde do trabalhador em educação.
Mas voltando às “belezuras” da sala de aula, gostaria de registrar que ser professora, na minha perspectiva, significa, em última instância, uma aposta no outro. Significa gostar de gente, conhecer a categoria geracional com a qual trabalha, oportunizar ao educando o conhecimento historicamente acumulado e respeitar a sua realidade sociocultural.
Lecionando Sociologia no Ensino Médio, com apenas uma aula por semana, enfrentando os desafios da dinâmica acelerada da escola, a agitação dos jovens e um desejo enorme de “afundá-los” nos tais conhecimentos historicamente acumulados, percebo que a resposta para uma aula melhor tem sido dada por eles, na medida em que, sem que me dê conta, mudam o “rumo da prosa” e trazem a reflexão sociológica para a realidade social a qual estão vinculados. Fazem os links com as disciplinas das diferentes áreas e me ensinam que a escuta qualificada é a melhor forma de construir um planejamento que os atenda.
Diante desse desafio tenho vivenciado experiências fantásticas, vendo jovens desconstruindo preconceitos e se dispondo a enxergar o mundo a partir de outro viés. Tenho presenciado jovens falando sobre política (apesar do discurso insistente de que eles não gostam de política), falando sobre o cotidiano e apontando, de forma enfática, quais são as suas necessidades. Vejo jovens que não se negam a cumprir as regras (com as devidas exceções), mas que as desejam justas. Vejo jovens com projetos de futuro, com sonhos, mas que enfrentam um presente de negação, sobretudo por parte da ausência de políticas públicas que promovam a inclusão social.
Encontro no exercício diário de minha profissão, a oportunidade de cumprir a função social de educadora, participando do processo formativo de cidadãos plenos, os quais refletem sobre a realidade a qual fazem parte e tentam, a seu modo, resistir às estruturas arcaicas, sejam da escola, sejam da sociedade. E é nesse movimento de resistência que se encontra a maior de todas as belezas: a capacidade de reagir diante da opressão. 
Enfim, como dizia Paulo Freire, a escola é sim lugar para ser feliz. E ser feliz, para mim, é perceber que os jovens, ao contrário dos discursos pessimistas, vislumbram um futuro de mudança, mas exigem um presente com respeito e dignidade. Por isso tudo é que afirmo que a sala de aula é o espaço onde os conhecimentos são construídos e não repassados. Novamente citando Freire, afirmo que no meu inacabamento, numa relação dialógica com os estudantes, (re)construo-me a cada instante.