sexta-feira, 17 de maio de 2013

Residência pedagógica

Fabíola dos Santos Cerqueira 
Mestre em Educação 
E-mail: cso.especialista@yahoo.com.br

Este artigo objetiva problematizar a situação do estagiário nas escolas públicas da Grande Vitória. Problematizar o entendimento dos gestores públicos em relação ao estágio e os prejuízos que esse entendimento equivocado tem trazido à formação dos próprios estagiários e dos demais alunos com os quais os mesmos trabalham.

É prática nas diferentes redes municipais da Grande Vitória a contratação de estagiários, sobretudo, para atendimento à educação especial. O estágio é, em tese, uma condição de aprendizado, no entanto, tem se manifestado como meio para garantir atendimento nas escolas regulares às crianças e adolescentes com deficiência.

Em tese, o estagiário deveria ser colocado para atuar com o melhor profissional da escola, nas mais diversas áreas (alfabetização, educação especial, educação infantil, dentre outras) para com ele aprender, na prática, os processos de ensino e aprendizagem. Porém, a realidade tem sido outra. Estagiários são contratados para “cuidar” dos alunos com deficiência e, em alguns casos, a falta do estagiário significa a não possibilidade do aluno estar na escola. Há situações mais agravantes em que os estagiários assumem a sala de aula, devido às faltas constantes de professores, que a cada dia adoecem mais, tendo em vista as condições precárias de trabalho.

Um estudante de medicina, no terceiro período da faculdade não pode prescrever medicamentos ou fazer cirurgias, no entanto, a política educacional permite que estudantes a partir do terceiro período de Pedagogia e quarto de outras licenciaturas estejam presentes nas escolas, assumindo, em algumas situações, como já relatado, a própria sala de aula ou se exige dele conhecimentos e habilidades que os profissionais formados não têm em relação à Educação Especial. O que vemos é que em nome da inclusão de alunos com deficiência nas escolas regulares, muitos processos de exclusão tem se dado cotidianamente, seja no direito da criança e do adolescente a uma educação de qualidade, seja na função social da escola de contribuir com a formação inicial do futuro profissional da educação.

Política pública de educação de qualidade tão proclamada pelas redes municipais de educação será efetivada apenas quando o estagiário deixar de se constituir como mão de obra barata e passar a ser visto como o que é: sujeito em processo de formação que necessita do contato com a prática escolar para sua qualificação profissional. E para que isso ocorra, precisam estar vinculados aos melhores profissionais da educação, precisam ser motivados a superar obstáculos e a enxergar a educação como profissão, que exige planejamento, estudo e dedicação. Não podem acreditar que “qualquer um” pode “dar aula”.

A área médica exige que o sujeito faça residência para ter o direito de atuar profissionalmente, a fim de qualificar o processo de formação. Sonho com o dia em que essa exigência será cobrada também para profissionais da área educacional. Neste dia, teremos estudantes acompanhados dos melhores professores, imbuídos do desafio de ensinar, pelo exemplo de suas ações, a arte de ensinar. E assim os profissionais chegarão à escola real, tendo passado pela experiência de aprendizagem com base no empírico e não na teoria. Se isto é uma utopia me permito alimentar-me dela para continuar acreditando que um novo mundo é possível e que educação de qualidade é meta a alcançar.

Texto publicado no Jornal A Tribuna, na coluna Tribuna Livre, do dia 16 de maio de 2013, página 27.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Fracasso escolar ou fracasso do ensino?

Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação (PPGE/UFES)

No início do ano letivo foi divulgado pela imprensa o resultado de uma pesquisa (questionários da Prova Brasil 2011) onde mais de 90% dos professores entrevistados afirmavam que a causa do baixo desempenho escolar era o desinteresse dos alunos. Associado ao desinteresse dos alunos vinha a falta de acompanhamento familiar. Penso que a questão não seja assim tão simples, pois precisamos estar atentos aos problemas de aprendizagem e também aos de “ensinagem”, ou seja, os alunos não aprendem por vários motivos e não somente por desinteresse. 
A relação com a cultura, para as classes dominantes, segundo Pierre Bourdieu, se dá através de um aprendizado precoce, desde a infância, na própria família. Já para as classes dominadas esse contato é feito tardiamente por inculcação escolar. Essa relação tem implicações, de acordo com o autor, no desempenho escolar, pois, quanto maior a relação de intimidade com as coisas da cultura e da linguagem, maior será a incorporação da ação pedagógica. Na perspectiva de Bourdieu, a escola é concebida como sendo uma instituição a serviço da reprodução e da legitimação da dominação exercida pelas classes dominantes. Conhecer essas engrenagens nos permitiria romper com essa lógica.
Em 2011, coordenei uma pesquisa em uma escola pública da rede estadual de ensino, no município de Serra, e alguns dados se destacaram: mais de 50% dos professores tinham pós graduação (especialização e mestrado), no entanto, em 2010, mais de 60% dos alunos do 1º ano do Ensino Médio ficaram reprovados ou evadiram. Num grupo focal com os alunos que haviam ficado reprovados em 2010 e que retornaram à escola em 2011, constatei que alguns deles reprovaram porque não queriam mesmo estudar. Faziam o que François Dubet chama de “greve” (queriam estar na escola apenas para relacionar-se com seus pares). Outros atribuíam à reprovação o fato de que ficavam desmotivados com disciplinas como Física, Química e Matemática e a impossibilidade de dependência fazia com que desanimassem de estudar, já que a reprovação em uma disciplina significaria repetir o ano. Assumiam sua parcela de responsabilidade, mas apontavam situações em que ficava claro a falta de incentivo e de aposta dos professores em relação aos alunos. Falavam muito na percepção de que os professores já chegavam à sala de aula sem ânimo para ensinar, o que fazia com que as aulas fossem entediantes. 
 
Em contrapartida, na conversa com os professores, o discurso legitimava o resultado da pesquisa a qual nos referimos no início desse texto. Nós, professores temos dificuldade em refletir sobre nossa prática pedagógica e desconsideramos outros elementos que podem interferir no processo de ensino. Enxergamos os alunos como únicos responsáveis pelo fracasso escolar. Não nos damos conta de que esse fracasso não é individual, mas demonstra o fracasso do processo de ensino.
Onde está o “problema”? Na cultura de origem do aluno ou na cultura escolar? É possível afirmar que os alunos das classes populares, por possuírem capital cultural incompatível com o exigido pela cultura escolar, não tenham cultura ou que não sejam capazes de obter sucesso escolar? Por que não pensar que as pessoas são diferentes, têm vivências e experiências diferentes, logo, aprendem de formas singulares e em diferentes tempos e espaços? Qual o sentido ou significado que os conteúdos ensinados têm para os alunos das classes populares? São os mesmos sentidos ou significados para os alunos das classes médias e elite? Em que sentido a formação do professor impacta o aprendizado do aluno?
Minha experiência tem mostrado que há uma lacuna na formação inicial do professor (que ainda espera encontrar na escola o aluno ideal) que não está sendo preenchida pela formação em serviço e que tem culminado no fracasso do ensino. Temos uma geração de analfabetos funcionais, preparados para decodificar o código escrito, mas não aptos para uma leitura política do mundo que os capacitaria para uma intervenção cidadã na realidade a qual fazem parte. Logo, não se trata de uma reflexão sobre o que sabem os alunos da escola pública e o que sabem os alunos da escola particular. Trata-se de uma reflexão sobre os objetivos do ensino: para a reprodução ou a transformação social? E isso perpassa, inevitavelmente pela formação do professor e pelas suas condições objetivas de trabalho.
Texto publicado no Jornal A Tribuna, de 02 de abril de 2013, página 26, coluna Tribuna Livre.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A Sociologia no Ensino Médio: desafios e perspectivas


Fabíola dos Santos Cerqueira
E-mail: cso.especialista@yahoo.com.br

Entre os dias 11 e 18 de janeiro de 2013 aconteceu no campus da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o IV CONECS (Conselho Nacional de Estudantes de Ciências Sociais). O evento contou com representação de estudantes de todas as regiões do Brasil. Uma das pautas do encontro foi o debate sobre a Sociologia no Ensino Médio. O objetivo era analisar os desafios que surgiram com o retorno da Sociologia no currículo do Ensino Médio, assim como as implicações para as universidades e para as escolas de Educação Básica. Isso porque ao longo dos anos, a partir do contexto político, social e econômico a Sociologia esteve presente ou ausente dos currículos escolares. Durante a ditadura militar, tivemos a substituição dessa disciplina por “Educação Moral e Cívica” e “Organização Social e Política do Brasil”, que tinham por interesse apenas “educar” a população a não enxergar os desmandos do regime autoritário.

A perspectiva atual é discutir em rede nacional “o que e como ensinar” Sociologia no Ensino Médio, envolvendo os sindicatos dos professores e universidades (que não podem se furtar dessa discussão). Não está em pauta ensinar ou não Sociologia. A obrigatoriedade da disciplina já é lei. Mas não dá para continuar admitindo que profissionais de outras áreas façam complementação pedagógica em apenas seis meses (à distância em alguns casos) e concorram com igualdade com quem fez a Licenciatura em Ciências Sociais ou Sociologia. Ou que Pedagogos e/ou Assistentes Sociais tenham prioridade em relação aos estudantes de Ciências Sociais/Sociologia.

Os currículos dos cursos de licenciatura em Ciências Sociais/Sociologia precisam ser reavaliados. A inclusão de disciplinas como Sociologia da Juventude e Sociologia da Escola são de extrema relevância para que o futuro professor compreenda o sujeito com o qual vai trabalhar no Ensino Médio e que tenha condições de refletir teoricamente a complexidade do que é a escola pública hoje. Outra questão que merece destaque é o estágio supervisionado que tem papel central na formação do docente, pois é através dele que o futuro professor poderá refletir sobre sua prática.

Por que não menos aulas de Matemática e Língua Portuguesa e mais aulas de Sociologia? Por que não Sociologia como disciplina obrigatória para quem faz vestibular para Ciências Sociais?

Queremos romper com a hegemonia. Queremos uma educação que valorize os conhecimentos historicamente acumulados e que haja equidade entre esses conhecimentos. Durante anos as Ciências Exatas são valorizadas e reconhecidas socialmente como mais importantes, mas ainda configura como justificativa para os maiores índices de reprovação escolar.

O cenário não é bom nem aqui nem em outros estados, mas vi jovens no IV CONECS com um brilho no olhar, com vontade de ser e fazer a diferença em nome da EDUCAÇÃO. Isso reascende a esperança de que um mundo melhor está sendo construído a cada dia. Após 10 anos de graduada consegui compreender neste evento o que Frei Betto disse no livro Sobre a Esperança (em diálogo com Mario Sergio Cortella), sobre a diferença entre o tempo pessoal e o tempo histórico. É possível que no meu tempo pessoal não consiga ver as mudanças que tanto sonho ver na educação. Mas aposto nesta nova geração e acredito que o futuro será melhor que o presente e me orgulho de poder fazer parte desse movimento de resistência contra a precarização da Educação e em especial do Ensino de Sociologia no Ensino Médio.

Texto publicado na Coluna Tribuna Livre, do Jornal A Tribuna, de 18 de janeiro de 2013, página 24.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Da infância à adultez: quando os sonhos morrem?

Quando eu era criança sonhava em mudar o mundo. Achava que quando eu fosse adulta as coisas seriam mais fáceis de resolver como o problema da fome, da educação, da desigualdade social, por exemplo. Mas sempre me deparava com alguém que dizia que eu era mesmo uma sonhadora, que o mundo é desse jeito e pronto.

Mas eu insistia nos sonhos e aí veio a adolescência/juventude e eu com mais força ainda acreditava que seria possível transformar esse mundo cheio de violência, desamor e descrença num mundo melhor. Foi na juventude que me graduei e comecei a lecionar. E sempre dizia aos meus alunos, desde os pequenos (pois trabalhei com crianças pequenas) até os adolescentes/jovens/adultos/idosos de que seria possível mudar o mundo, pois “quando a gente muda o mundo muda com a gente” (Gabriel O Pensador). Mas sempre tinha alguém dizendo para mim que isso era besteira, que o mundo era desse jeito e pronto.

Meu maior medo era acreditar que o mundo era desse jeito e pronto.

Não sou mais jovem. Sou uma mulher adulta e começo a entender o que os adultos diziam com “o mundo é desse jeito e pronto”. Quando somos vítimas de violência (de qualquer tipo), de injustiça, de indiferença, de preconceito começamos a enxergar o mundo de outra forma. Podemos escolher continuar acreditando no sonho de mudança e sermos até ridicularizados ou embrutecer. Nenhuma das duas escolhas é fácil. Ambas trazem dores.

Ontem fui mais uma vez vítima de violência. Arrombaram meu carro dentro do estacionamento da Secretaria Municipal de Educação de Vitória e levaram o som do carro e todos os meus CD´s. Só deixaram os do Fabio Junior (o ladrão tem um gosto mais apurado, pois os de Maria Betania, Chico Buarque, Legião Urbana, Kid Abelha, Ana Carolina e outros foram levados...rsrsrsrs).

Cheguei em casa destroçada. Não pelos bens materiais, mas pelo fato da violência ter ocorrido no meu local de trabalho e pelas circunstâncias que não vem ao caso detalhar aqui. Meu maior medo era perder a fé no mundo e nas pessoas. Era acreditar que o mundo é desse jeito e pronto, pois foi isso que ouvi durante todo o dia. Ontem fui comigo, mas poderia ser com qualquer outra pessoa. Acontece a toda hora.

Eu estava chocada. Apenas eu. Naturalizou-se a ideia de que a violência faz parte do nosso cotidiano e que não há nada mais a fazer. Por que tenho um som no carro? Deixou sacolas à vista? Deixou CD´s no carro? Tava pedindo pra ser roubada. Precisa ficar mais esperta. E se o ladrão for adolescente a ideia de reduzir a maioridade penal vem à tona.

Comecei a ter medo dos meus medos. Comecei a ter medo de acreditar que o mundo é desse jeito e pronto. Será? Será que sempre estive errada? Será que sou mesmo uma sonhadora? Mas Eduardo Galeano, ao falar da utopia nos disse que ela serve para nos fazer caminhar e se eu não tiver sonhos, mesmo que utópicos, como vou seguir em frente?

Fabíola dos Santos Cerqueira

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Muda Vitória?!


Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação

Diante do que foi publicado no jornal A Tribuna do dia 12 de dezembro de 2012, anunciando que a Câmara de Vereadores de Vitória aumentou em 25,19% o salário do prefeito, do vice e dos secretários municipais para o ano de 2013, só podemos acreditar que o lema de campanha do prefeito eleito está se consolidando. Esperamos que isso se reflita nos salários dos professores, pois a justificativa para o aumento é semelhante ao que temos vivenciado na educação, onde perdemos profissionais para outros municípios cuja remuneração é mais atraente.

Esperamos que o prefeito eleito seja tão sensível à educação quanto os vereadores foram em relação ao novo quadro de secretários do município, pois se queremos um alto escalão de qualidade (e isso perpassa pelo salário) como deixou transparecer, acreditamos que a EDUCAÇÃO DE QUALIDADE TAMBÉM DEVE PERPASSAR POR SALÁRIOS DIGNOS AOS PROFESSORES.

Anualmente a luta dos professores tem sido pela reposição da inflação e aumento real dos salários e a justificativa é a dificuldade financeira do município para honrar com os compromissos de campanha. Os professores fizeram greve na gestão Coser reivindicando melhores condições de trabalho. Iam às ruas protestar e mostrar à população as dificuldades encontradas nas escolas e também em relação à falta de professores. Víamos a publicação da nomeação dos profissionais e mesmo assim, as vagas não eram preenchidas, pois os salários não eram/são atraentes.

Mas bastou um indicativo de que havia dificuldade para montar a equipe de governo, tendo em vista a competição com as instituições privadas que pagam mais (isso também publicado em jornal A Tribuna), para que os vereadores se articulassem e aprovassem o aumento de salário do alto escalão.

Como profissional da educação meu sentimento é de indignação, pois a cada ano perco poder de compra, vejo a desvalorização do meu salário e o desrespeito com a minha categoria.

Que a mudança proclamada pelo prefeito eleito do município de Vitória, contemple a educação e seus profissionais. Que valorize nosso salário para que não haja mais falta de professores nesse município (onde uma vaga já foi tão cobiçada) por oferecer salários menores que dos outros municípios da Grande Vitória. Que os discursos sejam colocados em prática e que não se tornem apenas anestésicos para aplacar a indignação que sentimos diante do descaso com que os profissionais da educação tem sido tratados neste município.

Muda Vitória!!!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

POR ONDE ANDA O VERDADEIRO ESPÍRITO DO NATAL?

Fabíola dos Santos Cerqueira
Mestre em Educação

O natal é uma data religiosa, onde celebramos o nascimento de Jesus Cristo. No entanto, as propagandas televisivas nos fazem esquecer o real sentido dessa data e nos levam a pensar nos presentes, nas mesas fartas, nas bebidas, enfim, nas festas que de religiosas não tem nada. A reunião familiar em torno da alegria do nascimento de Cristo fica escondida nos anseios por detrás das trocas de presentes, sobretudo, entre as crianças.

Sensibilizada com a campanha dos Correios, fui adotar algumas cartinhas e ao lê-las, fui percebendo que as crianças expunham apenas seu desejo de consumir produtos cada vez mais caros, como computadores, vídeos games, bicicletas, celulares, tablets, enfim, toda essa tecnologia que faz a alegria da criançada. Não havia menção ao sentido do Natal apenas apelo para que o Papai Noel, pudesse atender seus apelos consumistas.

A crença no bom velhinho (materialização do capitalismo), faz com que as pessoas se esqueçam do verdadeiro espírito de Natal e transformem este momento de reflexão e de oração em mais uma festa. As lojas ficam abarrotadas e os comerciais de TV nos fazem crer que esta data se processa da mesma forma em todas as famílias, que todas as crianças irão receber presentes, que todas as mesas são fartas. É difícil imaginar que ao mesmo tempo em que há mesas repletas de comida e bebida, existam tantas pessoas no mundo (e às vezes tão próximas de nós) desprovidas do básico para viver.

A televisão é um meio de comunicação que influencia os hábitos das crianças e, contribui, para a construção de necessidades, tanto dos pequenos, quanto dos adultos. Passamos a ver a felicidade do Natal atribuída à possibilidade de consumo. Na lógica neoliberal, aliás, cidadão é aquele que consome. Aqueles que não podem consumir, a partir dessa lógica, são colocados à margem, pois é o consumo que sustenta o capitalismo.

Como é difícil educar um filho neste mundo, onde a todo o instante o apelo do consumo, da cultura do ter, em detrimento do ser, se faz presente. Um mundo vazio de amor, de perdão, de solidariedade, mas repleto de ganância, de individualismo e de intolerância.

Com a proximidade do Natal percebemos também que as pessoas tornam-se mais sensíveis ao sofrimento alheio. É comum, nesta época, os orfanatos e asilos receberem muitas doações e visitas. Não sou contra às doações nem às visitas, mas penso que deveríamos ser sensíveis mais vezes ao ano. A solidariedade significa ruptura com a lógica neoliberal e a redistribuição das riquezas, com o intuito de diminuir as desigualdades sociais. Infelizmente, confundimos solidariedade com caridade e doamos o que nos sobra, mais como uma satisfação pessoal ou para expiar nossos pecados do que uma preocupação com o outro.

Hoje, escravos do tempo e da tecnologia (abolimos as correntes, mas somos monitorados pelo celular), não nos damos conta de que a vida é mais que acúmulo de bens materiais... é mais que trabalho, é mais que dinheiro. Quantos de nós cultivamos o hábito de ler para/com os filhos? Quantos de nós dedicamos parte do tempo para brincar com os filhos, contar piadas, olhar as estrelas, admirar o nascer e o por do sol?

Que neste Natal, além dos presentes e da ceia, haja espaço para agradecimento, perdão, amor, solidariedade, fé e reflexão.

Texto publicado no Jornal A Tribuna, na coluna Tribuna Livre, de 21 de dezembro de 2012.